quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Oferta de gás boliviano ao Brasil pode diminuir

O Brasil corre risco de ver diminuída a oferta do gás boliviano em 2008. O problema não é político, é de falta de investimentos em infra-estrutura, apontam especialistas. Segundo eles, a falta de aporte de recursos do governo da Bolívia nos campos de gás e as restrições à empresas transnacionais no país, podem gerar uma queda na produção do insumo.
O problema é que a Bolívia é responsável pela metade do fornecimento de gás consumido no Brasil. A Petrobras tem um contrato para receber 30 milhões de metros cúbicos diários do país vizinho. Em julho, esse volume foi de 25 milhões e subiu para 27 milhões em agosto, segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. Mas para 2008, especialistas acreditam que a Bolívia não terá condições de mandar um volume próximo do contratado.
"Nos últimos três anos, os investimentos foram paralisados na Bolívia, com a nacionalização de algumas empresas", lembrou o presidente do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires. Segundo ele, isso deve afetar a manutenção de campos de gás, com reflexos na queda de produção. E no médio e longo prazos, ainda poderá ocasionar uma redução das reservas e gás.
A dificuldade da Bolívia é que o país precisa aumentar a sua produção de gás para atender aos contratos com o Brasil e Argentina, e ainda abastecer o seu mercado interno, justo em um momento de restrição de investimentos. Com o Brasil são 30 milhões de metros cúbicos diários, mais 7,7 milhões com a Argentina - que quer ampliar esse volume para 27 milhões de metros cúbicos por dia nos próximos três anos - além de atender ao seu mercado interno. Dos 35 milhões de metros cúbicos disponibilizados diariamente pela Bolívia, apenas 4 milhões são para consumo interno. O restante dos 31 milhões é exportado para o Brasil e para a Argentina, normalmente em quantidades insuficientes.
A primeira baixa no Brasil já foi sentida. A termelétrica de Cuiabá, com capacidade instalada para gerar 300 megawatts (MW) de potência, está sem receber o gás natural da Bolívia. A usina tem um gasoduto próprio que liga a térmica diretamente à Bolívia que não está sendo abastecido.
A própria Petrobras, maior empresa na Bolívia, vai congelar seus investimentos no país até 2012. Em seu plano de investimentos para 2008-2012, divulgado na semana passada, a empresa somente vai fazer investimentos de manutenção na Bolívia. Dos US$ 15 bilhões anunciados, 70% vai para exploração e produção, sendo que os Estados Unidos ficarão com 32% desse total, a maior fatia. A estabilidade do mercado do Golfo do México está atraindo a estatal, diferente do que ocorre na Bolívia.
"A Bolívia corre o risco de virar uma Argentina", disse Pires, ao traçar um cenário futuro para o mercado de gás na Bolívia, comparando com o atual da Argentina, que passou de produtor de gás a importador, por falta de investimentos. A partir de 2002 o preço do gás foi congelado na Argentina e as empresas pararam de investir, o consumo continuou crescendo e as reservas caíram.
O sócio da comercializadora Comerc, Marcelo Parodi, bate na mesma tecla. Ele disse que o Brasil corre risco de desabastecimento do gás vindo da Bolívia, porque o país vizinho sofre com a saída de pessoal especializado. Parodi aponta as restrições que o governo de Evo Morales está impondo a empresas transnacionais, como responsáveis por essa debandada, fator que pode reduzir a produção do país vizinho e impactar no fornecimento de gás para o Brasil. Ele ainda cita a pressão da Argentina como agravante. O vizinho do prata quer renegociar preços para garantir uma maior quantidade de gás. "O receio é a interrupção de nosso fornecimento no curto prazo". (Gazeta Mercantil)

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