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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Exploração e Produção no Hemisfério Norte*

Em 1956, o geólogo da Shell M. King Hubbert previu durante uma conferência o auge e posterior declínio das reservas americanas a partir do final dos anos 60 e início dos anos 70. Com o passar das décadas, sua teoria comprovou-se na prática e os EUA passaram a temer o fim de suas reservas. Hubbert, no entanto, desconhecia o petróleo do Alasca, estado que hoje é a grande promessa dos EUA em termos de reservas. Embora a quantidade precisa de barris a serem explorados na região seja nebulosa e pouco divulgada por órgãos americanos, é provável que seja o suficiente para manter o nível de produção do país por mais algum bom tempo (os americanos permanecem como os terceiros maiores produtores do mundo). Apenas na National Petroleum Reserve a estimativa é de mais de 10 bilhões de barris.

No entanto, alguns obstáculos para que esse petróleo passe de fato a assumir um papel de destaque na produção nacional colocam-se no caminho. O principal deles diz respeito a questões ambientais. Cercada por reservas, a região já sofreu com o grave derramamento da Exxon Valdez em 1989 (até hoje considerado um dos mais traumáticos da História) e com mais um derramamento em 2006 (de menores proporções, mas suficiente para despertar a atenção dos órgãos de proteção ambiental). A pressão vem sendo muito forte por parte dos ambientalistas e – ainda que não impeçam o avanço nos projetos de coligação entre os dutos do Alasca e do Canadá – fazem com que investidores e políticos re-avaliem os benefícios de seguir por este caminho.

A pressão recai especialmente sobre os republicanos, acusados de querer aumentar a produção americana a qualquer custo. A escolha da governadora do Alasca Sarah Palin para integrar a chapa de John McCain é um indício das intenções republicanas, embora o atual governo esteja optando por investir no Golfo do México e fortalecer relações com o Canadá. Uma alternativa capitaneada pelos democratas para atenuar a demanda americana concerne o investimento em bioenergia. Por outro lado, apesar da capacidade americana de produzir o etanol a partir do milho, a quantidade de grãos necessária para produzir combustível de qualidade satisfatória é alta, o que leva a um aumento de preços preocupante para os criadores de gado e ativa os protestos de quem clama ser absurdo plantar energia no lugar de comida.

O Canadá vive uma situação semelhante ao Alasca em relação à questão ambiental. Extraído do arenito betuminoso, o mais promissor petróleo canadense (com reservas estimadas em 175 bilhões de barris) produz pelo menos cinco vezes mais dióxido de carbono, dentre outros danos relacionados ao ar, ao solo, às florestas e à água (a organização não-governamental Greenpeace posiciona-se como um dos mais ferrenhos adversários deste método de produção do petróleo). O gasto com gás natural também é extremamente alto; vale lembrar que os dispêndios atuais seriam o suficiente para alimentar 3,2 milhões de casas (isto se formos nos basear em dados atuais, desconsiderando o futuro aumento de produção).

Outra dificuldade para a extração do petróleo canadense é o custo de produção (o arenito betuminoso é mais caro de refinar e o aproveitamento do material bruto costuma ser menor). Durante muito tempo, devido à falta de tecnologia apropriada, a produção foi barrada por não gerar lucro. Mesmo hoje – quando o custo de extração baixou consideravelmente e o índice de recuperação saltou de 10% para 25% - existe a preocupação com a queda no preço do barril e com os altos investimentos necessários para habilitar uma infraestrutura capaz de suportar a produção em larga escala. O projeto canadense é produzir 4.8 milhões de barris/dia em 2020, o que lhes colocaria entre os 5 maiores produtores de petróleo do mundo.

Logisticamente, o Canadá não tem do que reclamar. Próximo de seu principal consumidor, os EUA, o país pode exportar facilmente seu petróleo através do Atlântico para a União Européia e, em um futuro próximo, poderá também transportá-lo até a China (falta ainda uma rede de dutos que leve o petróleo até o Pacífico). Hoje uma das principais discussões que envolvem o petróleo canadense é exatamente acerca do destino desse petróleo: enquanto alguns defendem que o Canadá se torne um exportador praticamente exclusivo dos EUA, apoiando-se na longa e fértil relação entre ambos os países, outros enxergam nas “areias oleosas” uma oportunidade de reforçar a independência econômica do Estado em relação aos vizinhos.

Como podemos constatar, o problema do petróleo no Hemisfério Norte – ao contrário da maior parte dos produtores – já não é a disputa com vizinhos ou as dificuldades de transporte (embora tais questões sempre existam). Daqui a algum tempo, com novos avanços tecnológicos, talvez nem mesmo a infraestrutura seja mais tão cara. E então o problema continuará sendo, acima de tudo, a responsabilidade internacional de dois países de primeiro mundo em buscar soluções para atender às suas necessidades e interesses, sempre de grande dimensão, sem causar um grande prejuízo ao planeta.


Mauro Kahn & Pedro Nobrega - Clube do Petróleo - Leia outros artigos e os primeiros desta série acessando o site
http://www.clubedopetroleo.com.br/


* Publicação e divulgação integral deste artigo estão autorizadas desde que sejam preservados os créditos de autoria e mantido inalterado o conteúdo.
(Fonte: Clube do Petróleo)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Petrobras é a 7ª maior empresa de petróleo do mundo, em 2007


A Petróleo Brasileiro S/A (Petrobras) surgiu em outubro de 1953, com a edição da Lei 2.004, com o objetivo de executar as atividades do setor petróleo no Brasil em nome da União. Até 1997, a empresa detinha o monopólio das operações de exploração e produção de petróleo, bem como as demais atividades ligadas ao setor, à exceção da distribuição atacadista e da revenda no varejo pelos postos de abastecimento.

Em 1997, o Brasil, através da Petrobras, ingressou no grupo de 16 países que produz mais de 1 milhão de barris de óleo por dia. No mesmo ano, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou uma lei que abria as atividades da indústria petrolífera no Brasil à iniciativa privada.

No dia 21 de abril de 2006, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à produção da plataforma P-50, no Campo de Albacora Leste, na Bacia de Campos, o que permitiu ao Brasil atingir auto-suficiência em petróleo.

Atualmente, a Companhia está presente em 27 países. Em 2007, a Petrobras foi classificada como a 7ª maior empresa de petróleo do mundo com ações negociadas em bolsas de valores, de acordo com a Petroleum Intelligence Weekly (PIW), publicação que divulga anualmente o ranking das 50 maiores e mais importantes empresas de petróleo.

A Petrobras iniciou as obras do Centro de Integração do Comperj, em São Gonçalo, também em 2007. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro tem investimentos previstos em torno de US$ 8,38 bilhões. Com início de operação previsto para 2012, o Comperj estimulará a instalação de indústrias de bens de consumo e irá gerar cerca de 212 mil empregos diretos e indiretos.

Em 8 de novembro de 2007, a Petrobras anunciou a descoberta de uma reserva de cinco bilhões a oito bilhões de barris de petróleo de boa qualidade e gás abaixo da camada de sal em um poço na área Tupi, localizada na bacia de Santos. A descoberta poderia representar um aumento de 50% nas reservas atuais e tornar o Brasil um país exportador de petróleo.

Além disso, em 21 de janeiro deste ano, a estatal divulgou a descoberta de "uma grande jazida" de gás natural também em Santos, com profundidade de cerca de 5.100 metros e espessura de mais de 120 metros, nomeada como Campo de Júpiter.

Petrobras em Números (dados referentes ao ano de 2007)

Receitas líquidas - R$ 170.578 milhões

Lucro líquido - R$ 21.512 milhões

Investimentos - R$ 45,3 bilhões

Acionistas - 272.952

Exploração - 70 sondas de perfuração (43 marítimas)

Reservas - 11.704 bilhões de barris de óleo e gás equivalente (boe)

Poços produtores - 12.935 (738 marítimos)

Plataformas de produção - 109 (77 fixas; 32 flutuantes)

Produção diária - 1.918 mil barris por dia de petróleo e LGN; 382 mil barris de óleo equivalente de gás natural por dia

Refinarias - 15

Rendimento das refinarias - 1.965 mil barris por dia

Dutos - 23.142 km

Frota de navios - 153 (54 de propriedade da Petrobras)

Postos - 5.973

Fertilizantes - 3 Fábricas: 235 mil toneladas de amônia e 700 mil toneladas de uréia

(Fonte: Estadão/Petrobras, 2008-04-04).

segunda-feira, 17 de março de 2008

Rio Grande do Norte: “A hora é de buscar parceiros e investir em infraestrutura”


Uma das maiores autoridades do país em petróleo e gás, o consultor Jean-Paul Prates é advogado, economista, Mestre em Ciências (M.Sc.) da gestão pública de recursos energéticos e ambientais pela Universidade da Pensilvania (Filadélfia, EUA) e Mestre em Economia e Regulação da Indústria do Petróleo pelo Instituto Francês do Petróleo (Paris, França). Desde 1991 ele atua como consultor especialista em recursos naturais energéticos, comentarista do canal a cabo Globo News, colunista do Globo Online sobre petróleo e gás, e diretor-executivo da Expetro, maior consultoria nacional especializada em petróleo, gás e biocombustíveis. Com todo este currículo, Prates defende que o Rio Grande do Norte está vivendo um momento crucial para as suas pretensões de sediar um grande projeto petroquímico em seu território, alavancando seu desenvolvimento. Nesta entrevista exclusiva a O Poti, ele detalha este sentimento.


O Poti - O anúncio da Petrobras de que pretende construir uma "refinaria em Guamaré" não teve uma repercussão maior do que deveria, visto que, segundo o próprio mercado, a decisão de ampliar a produção de líquidos naquele pólo seria um caminho natural da estatal, ou seja, uma decisão que ela teria que tomar por questões de mercado, naturalmente?


Jean-Paul Prates - Absolutamente. Muito ao contrário. Se você se lembrar da época do anúncio da Refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), falou-se inclusive na possibilidade de se fechar as unidades de Guamaré tendo em vista a sua iminente inviabilidade perante um complexo de refino tão maior a ser construído logo ao lado. A grande conquista do Estado, neste sentido, foi não apenas garantir a continuidade das operações em Guamaré como conseguir que a Petrobras transfira imediatamente as instalações que atualmente já produzem diesel, biodiesel, QAV (querosene de aviação) e GLP (gás liqüefeito de petróleo) naquela cidade para a gestão da área de "Refino e Abastecimento" da empresa, que é quem comanda todas as refinarias da empresa. Isto significa que, já a partir deste ano, a Petrobras irá pensar e planejar Guamaré como refinaria, e não como mera extensão das suas unidades de produção de petróleo no RN. O efeito disso, dentro e fora da empresa, é muito mais do que meramente retórico. Representa uma mudança radical na mentalidade e nos sensos de prioridade e viabilidade quanto aos projetos de eficientização, ampliação e modernização das instalações de Guamaré. O Estado terá a 12ª refinaria de petróleo do país antes mesmo da inauguração da congênere pernambucana, contabilizada como 11ª. A partir daí, com foco diferenciado e voltado para a fabricação de produtos leves (gasolina automotiva, QAV e diesel com alta especificação ambiental), esta renovada e ampliada instalação de refino poderá chegar a processar 120 mil barris de petróleo por dia dentro de 5 ou 6 anos, o que não poderá de forma alguma ser chamado de mini-refinaria e sim, em padrões mundiais, de uma refinaria de médio porte– na mesma faixa da RBPC (Cubatão-SP) e da REPAR (Araucária–PR), e equivalente a metade da RLAN (Salvador) e ao dobro da REMAN (Manaus-AM).


Tecnicamente, quais as diferenças entre uma refinaria e um pólo petroquímico? Qual dos dois é mais vantajoso para o RN?


A atividade de refino de petróleo consiste basicamente em processá-lo e separá-lo em várias substâncias úteis. A maneira mais antiga e comum de separar os vários componentes (chamados de frações) é usar as diferenças entre as temperaturas de ebulição. Isso é chamado de destilação fracionada. Basicamente, esquenta-se o petróleo bruto deixando-o evaporar e depois condensa-se este vapor. Técnicas mais novas usam o processamento químico, térmico ou catalítico em algumas das frações para criar outras, em um processo chamado de conversão. O processamento químico, por exemplo, pode quebrar cadeias longas em outras menores. Isso permite que uma refinaria transforme óleo diesel em gasolina, de acordo com a demanda por gasolina. As refinarias fazem ainda o tratamento das frações para remover as impurezas e combinam as várias frações (processadas e não processadas) em misturas para fabricar os produtos desejados. Por exemplo, as diferentes misturas de cadeias podem criar gasolinas com diferentes índices de octanagem. Os produtos derivados são armazenados no local até que sejam entregues aos diferentes compradores, como postos de gasolina, aeroportos e pólos petroquímicos.


Então, um integra o outro?


É. A indústria petroquímica, como parte integrante da indústria química, é um segundo estágio de beneficiamento do petróleo, que abrange os segmentos de produtos químicos orgânicos, além das resinas e elastômeros. É uma indústria tão intensiva em capital quanto a de refino, e onde a escala de produção é o principal fator de viabilidade, já que exige altos investimentos e longo período de maturação. A competitividade da petroquímica está intimamente relacionada com quatro fatores: matéria-prima, escala de produção, tecnologia e facilidade de acesso ao mercado consumidor. Em relação a qual seria a atividade mais vantajosa para o Estado, eu diria que não cabe esta "competição" pois uma atividade (no caso, a petroquímica) praticamente pressupõe a existência da outra (refino ou processamento de gás) em escala razoável.


Então esta "refinaria" pode ser a base para a criação de um pólo petroquímico no RN? Por que?


Sim. A indústria petroquímica global, assim como a nacional, se organiza em pólos para facilitar a logística de produção e o transporte dos produtos obtidos e, com isso minimizar os custos. Um dos principais fatores para a definição da localização de um novo pólo petroquímico é a proximidade de uma refinaria. Modernamente, com o advento da indústria gás-química, locais que congregam capacidade de refino e também processamento de gás natural (como será o caso de Guamaré) são ainda mais valorizados quando se coloca este tipo de escolha. Um pólo petroquímico, portanto, pressupõe a existência de uma refinaria ou de unidades de processamento de gás natural nos seus arredores, quando não integradamente. Portanto, para o Estado - uma vez que a nossa produção de gás ainda não chega a ser suficiente para justificar sozinha a instalação de indústrias petroquímicas como PVC e outras, já debatidas - ter a refinaria é um passo necessário para ir adiante rumo ao pólo petroquímico que, na verdade poderá vir a ser um pólo de nome mais complicado mas mais preciso: pólo petro-gás-químico, combinando elementos das duas vertentes. Neste sentido, a decisão de oficializar, modernizar e ampliar Guamaré como "refinaria" é fundamental para se conquistar a tão propalada "escala", que sempre serviu de empecilho às pretensões do Estado de abrigar unidades que agregassem valor à sua produção de petróleo e gás.


O que o estado precisa fazer para conseguir o pólo petroquímico? E que erros não pode cometer?


O que houve neste momento, que deu certo, foi uma coisa pela qual lutamos muito no passado recente que é um casamento entre dois fatores preponderantes: o técnico e o político. O político exercido pela união inédita obtida pela Governadora Wilma e a bancada parlamentar federal, no exato momento em que esta bancada tem o mais elevado poder representantivo já visto nos últimos tempos. E o fator técnico em função da necessidade de aumento do refino, novas grandes descobertas de petróleo, necessidade de atendimento de normas técnicas ambientais (novas especificações do diesel quanto a emissões) e o convencimento interno da Petrobras de reconhecer o mérito de se passar a unidade de Guamaré para debaixo da área de refino da empresa. O pólo petroquímico virá como decorrência destes fatores técnicos e comerciais interessantes à empresa investidora Petrobras combinados com a disposição das forças do Estado em manter esta união acima das rivalidades e pretensões políticas locais. O clima de cordialidade, receptividade e maturidade por que passamos atualmente deve ser mantido, a todo custo. Por vezes, em meio a todo este esforço iniciado em 2003, cheguei a pensar que o maior adversário do Estado era o próprio comportamento derrotista ou anti-competitivo de alguns formadores de opinião importantes que duvidavam (e talvez ainda duvidem) que o Estado pudesse conquistar a refinaria e muito mais. Não podemos voltar a este estágio precário de consenso. Do ponto de vista técnico, sabe-se que da atividade de refino resultam resíduos que precisam ser monetizados e aproveitados. Como temos aqui outras matérias primas que complementam estes resíduos (como por exemplo, na produção de resinas plásticas), as condições favoráveis estão dadas.


E que ainda falta?


No mais, resta-nos, agora, brigar em três frentes bastante desafiadoras: 1) consolidar estas decisões da Petrobras - até maio; 2) atrair empreendimentos de segunda e terceira geração que constituam mercado para os produtos da petroquímica; 3) solucionar e prover infra-estrutura de logística para o entorno do pólo, conferindo plena viabilidade técnica e econômica. Além destas frentes, o Governo do Estado já trabalha ações complementares como o estudo e controle dos impactos externos destes empreendimentos (ambiental, social, econômico) e o direcionamento de políticas educacionais e de formação profissional, bem como de estímulo a cadeias produtivas locais para a inserção da população local nestes empreendimentos (Fonte: Diário de Natal, 2008-03-17).